Quanto vale uma espécie?

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Essa talvez seja uma das perguntas mais complexas para se responder e possivelmente não exista uma resposta tão precisa quanto desejamos. O processo de especiação — a formação de uma nova espécie — depende de inúmeros fatores, como os químico-físicos (temperatura, luz, umidade, etc.), biológicos (espécies competidoras, presas, predadoras, invasoras…), climáticos ou geológicos (terremotos, deriva continental). Isto sem falar nos eventos que podem chegar sem aviso, como aconteceu há 65 milhões de anos e produziu um dos maiores eventos de extinção do planeta.Foi possivelmente graças à um meteoro que a chamada Era dos Dinossauros deu lugar ao tempo que vivemos hoje: a Era dos Mamíferos, na qual somos atualmente uma das espécies mais significativas do ponto de vista do impacto ambiental global.

Todos esses fatores podem atuar de forma independente ou se potencializar quando ocorrem juntos. São essas complexas interações ou a ausência delas que impedem precisar o tempo do processo de formação de novas espécies.
Sabemos que eventos como o citado acima são momentos onde acontecem grandes mudanças na vida do planeta. Muitas espécies não suportam as mudanças e são extintas, outras iniciam um processo de adaptação e alguns indivíduos podem sobreviver. Se a mudança ao longo do tempo produzir seres que não conseguem mais reproduzir entre si, estes são considerados de espécies diferentes. Esses eventos ocorreram diversas vezes na história da Terra e certamente ocorrerão novamente durante os cinco bilhões de anos que restam ao planeta.

Na última Era Glacial, há cerca de 12 mil anos, grande parte do Brasil foi afetada pela diminuição da temperatura global. Alguns locais foram menos afetados, como a Amazônia, Mata Atlântica e Pantanal, regiões onde muitas espécies encontraram abrigo durante os longos anos de baixa temperatura. Aquele foi um momento onde ocorreram grandes transformações na fauna brasileira e consequentemente esses locais mantiveram sua alta diversidade, legado que persiste até hoje mesmo com a pressão do homem.

O Pantanal é o lar de uma das aves mais incríveis do mundo: a arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus). Se prestarmos atenção nos detalhes do corpo dessa espécie — seu bico especializado em quebrar materiais resistentes, as cores de suas penas, a aerodinâmica do seu corpo e seu complexo comportamento social, teremos a noção que foram necessárias milhares ou quem sabe milhões de gerações (anos) de adaptação e seleção natural para formar a espécie como a admiramos hoje. Cada indivíduo carrega sua riqueza dentro de suas células — o DNA, o código único de cada indivíduo — e sabendo disso é que podemos entender o trabalho incansável de conservacionistas como Neiva Guedes, que há mais de 20 anos estuda e busca proteger essa riqueza individual e intransferível dos indivíduos de vida livre que voam pelos céus do Pantanal. A luta é contra o tempo, pois as populações declinam a cada dia na natureza em troca de um valor incompatível com todo o caminho evolutivo que essa e todas as demais espécies já percorreram até aqui.

A perda de uma espécie é algo irreparável do ponto de vista biológico, pois essa sequência de genes possivelmente não existirá em outras espécies. Essas sequências podem ser a chave para combater doenças ou resolver algum problema.
Do ponto de vista ecológico, parte-se do pressuposto que todas as espécies possuem relações com as demais que vivem em seu ambiente, numa espécie de teia ecológica. Quando uma é extinta toda a teia entra em desequilíbrio, o que pode acarretar aumento ou diminuição de populações de diferentes espécies, incluindo nós seres humanos.


Texto originalmente publicado no site EcoInforme, no qual sou colaborador.

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